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domingo, 15 de agosto de 2021

Recado de Amor

Chama-se Aurora a nobre companheira,
Uma das que encontrei na hora derradeira
Do corpo cujo laço me prendia;
Mensageira da paz e da alegria,
É um misto de menina, flor e estrela...
Depois de longa convivência,
Em meu novo processo de existência,
Pude efetivamente conhecê-la.

Para logo notei que Aurora onde estivesse,
Ante os amigos de qualquer idade,
Lembrava um coração que, de todo, se desse
A tecer fios de felicidade
Para quem lhe escutasse as palavras de luz;
No entanto, aos poucos, vi que ela trazia
Extenso traço de melancolia,
Obscuro pesar, escondido e profundo.

Sem que eu nada indagasse, certa feita,
Ela me disse: - "Irmã Dolores,
Devo tornar ao mundo
Numa jornada estreita.
Irmã, onde estiveres, onde fores,
Roga ao Céu abençoe a luta que me leva
A socorrer um ente amado,
Para mim, tal qual filho desgarrado,
Nas veredas da treva..."

"Mas não podes, irmã, - perguntei, com cuidado, -
Ampará-lo daqui, sem renascer na Terra?"
- "Não, não posso, - ela disse, é na volta que insisto,
Já que em cinco existências, lado a lado,
Esse filho que eu amo é um homem transtornado
Que fugiu por orgulho à presença do Cristo."

Depois de semelhante entendimento,
Acompanhei-a, certa vez,
A fim de conhecer-lhe o ente amado
A quem se afeiçoara noutras eras...
Nele encontrei um cidadão prendado,
Esbanjando poder, nome e talento.

Conquanto homem de bem, de maneiras sinceras,
Casado, pai de um filho
Que ainda não chegara a contar quatro anos,
Professor e eminente cientista,
Emitia conceitos desumanos,
Se alguém falava em fé, expondo-se-lhe à vista.

Logo após, muitas vezes,
Ateu maior, entre os grandes ateus,
Dele escutei opiniões como estas:
- "Santos e religiões nessa história de Deus
São lendas de pessoas desonestas,
O espírito é ilusão da mente alucinada,
Quando a morte aparece, a vida é cinza e nada."

Mas Aurora voltou, - afeição renascida, -
Tomando dele próprio a sua nova vida.
A mãezinha querida, excelente senhora,
Por sugestão do Plano Superior,
Deu-lhe o nome de Aurora...

Tenra criança ainda, ela exprimia amor,
Impressionando ao pai com o luminoso olhar...
No regaço materno, era uma flor no lar.
Crescendo um tanto mais, era-lhe a companhia,
O pai achara nela a fonte da alegria...
Cinco anos apenas e a criança
Endereçava a ele assuntos tais,
Que o genitor se via em profunda mudança,
Nos seus próprios anelos paternais.

Assim que os dois se punham mais sozinhos,
Fosse em casa, nas praias, nos caminhos,
A pequena fazia indagações:
- "Papai, quem fez o mar assim tão grande?
Quem cultiva estas plantas que nós vemos?
Quem criou nossos pés para que a gente ande?
Quem segura no chão a casa em que vivemos?
Papai, quem dá comida aos pássaros na serra?
Quem fez o Sol? Será que o Sol assim, tão brilhante e tão quente,
É uma vela de Deus, iluminando a Terra?"

O pai ouvia a filha, enternecidamente,
E respondia, admirado:
- "Filhinha, vais crescer ao nosso lado,
Tudo compreenderás no momento preciso..."
E parava a pensar, sob longo sorriso.
Após algum silêncio, a expressar alegria,
Vendo as aves saltando, ramo em ramo,
Sempre agarrada ao pai, a pequena dizia:
- "Papai, de tudo o que já sei,
Sabe o que já falei?
Já falei à Mãezinha que eu te amo...
Mas, um dia surgiu... Há sempre um "mas"
Quando a vida feliz perde o gosto da paz.

A menina adoeceu, inesperadamente
E, após longa pesquisa, o médico anuncia
A presença de estranha leucemia...
Os pais lutaram quais leões, à frente
De um perigo mortal, no entanto, hora por hora,
Notam a pequenina e terna Aurora
A definhar e a definhar...

Até que, em certa noite, unidos a chorar,
Sem qualquer esperança que os conforte,
Viram-na repousar no silêncio da morte.
Lembrando um anjo lindo estruturado em cera,
A filhinha querida adormecera.
Dois meses sobre os traços da ocorrência,
A pedido de Aurora,
Fui visitar-lhe a residência.
Não mais achei ali a beleza de outrora...

Tentei buscar-lhe o pai que soube ausente
E encontrei-o num quadro comovente;
Estava triste e só num campo santo,
Tateando na lousa o nome da filhinha
E, demonstrando a mágoa que o retinha,
Falava em alta voz, encharcada de pranto:

- "Filha do coração, embora eu viva triste,
A verdade me diz que a morte não existe.
Anjo de paz e amor, é impossível morrer,
Vives hoje no Além, tanto quanto em meu ser...
Perder-te a companhia é toda a minha dor,
Não olvides teu pai, cansado e sofredor!...
Nunca te esquecerei, filha dos sonhos meus,
A saudade de ti trouxe-me a luz de Deus..."

Então, pude anotar
Naquela inteligência em supremo pesar,
Mostrando o coração sem disfarce e sem véus,
Que toda vida curta, ao brilhar e morrer,
Para quem ama e fica, ante o mundo a sofrer,
É um recado de amor no correio dos Céus!...

Autora: Maria Dolores
 

domingo, 1 de agosto de 2021

Sinal de Deus

Ouvi dizer que um Sábio
Procurando caminho,
A fim de sobrepor-se aos outros seres,
Após vencer hesitações em bando,
De alma firme e disposta
Para entender a realidade,
Interpelou a vida perguntando
Se o Tempo era o maior de todos os poderes;
Mas foi o próprio Tempo
Quem lhe trouxe a resposta:

- “Ouve, amigo,
Na marcha em que prossigo,
Não marco a senda em vão...
Sou mudança de tudo em derredor,
Firo e restauro, exalto e obscureço,
Para que o mundo pague o preço
Da corrida ao melhor...

Impérios vi nascer nos milênios sem data,
Raças, povos, nações, conquistadores, reis...
Mas a vida exigiu estradas novas,
Novas realizações e novas leis
E tudo transformei com força intimorata.

Vi milhões de pessoas sob algemas,
Vinculadas a lutas de outras eras,
Mas apaguei as aflições extremas,
Que as faziam sofrer
Sob longas esperas...

Ódio, ambição, loucura, em tremendos conflitos,
Sombras assinalando embates infinitos
Em convulsões de guerra
Cederam-me à pressão de gradativo corte,
Porquanto o meu domínio abrange a vida e a morte
Nos caminhos da Terra.

Tudo segue comigo em todos os instantes
Nos meus braços gigantes,
Homens, legislações, conceitos, normas,
Renovo sem cessar no cadinho das formas...

Embora isso, devo confessar-te
Que algo existe mais forte, em toda parte,
Muito mais forte do que os meus impulsos;
Esse algo que fica
E que ninguém relega para trás,
Revelando beleza, luz e paz
É o bem que se pratica.

Tudo o que vês no mundo em ascensão,
É o bem que nasce, cresce e se alteia de nível,
Quase que atravessando as raias do impossível
Para manter a evolução...

Ama, serve e constrói nos encargos que levas
E serás novo sol a dissipar as trevas;
Não te prendas a mim,
De idade para idade,
Vive na caridade...
O bem é o talismã da vitória sem fim.”

Somente aí o Sábio compreendeu
Que o Tempo por mais forte sofre a amarra
Da energia que esbarra
Entre limitações de ciclos e museus,
E que apenas o amor sobrevive no mundo,
Por dom inalterável e profundo,
- Permanente sinal da presença de Deus.

Autora: Maria Dolores
 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Presença de Deus


Afirmas, muita vez, alma querida,
Em fervorosa prece: “Quero, Jesus, servir e cooperar contigo!...
Ah! Senhor, se eu pudesse!...”

Depois, declaras-te sem forças;
Pensa, entretanto, nisto:
Podes ser hoje mesmo, onde estiveres,
A sublime extensão da bondade de Cristo!...

Fita a sobra da mesa que te ampara;
Utilizando um pão, simples embora,
Consegues replantar as flores da alegria
Na penúria de quem chora.

Considera o montão de bens que atiras longe
Sem sentir, sem pensar, inconsequentemente:
Descobrirás nas mãos o privilégio
De estender reconforto a muita gente.

Lembra a moeda, tida por singela;
Escorada na fé que te bendiz,
Transforma-se na xícara de leite
Que socorre e refaz a criança infeliz.

Detém-te nos minutos disponíveis;
Ao teu devotamento se farão
A visita, a bondade, o carinho e consolo
Para o enfermo largado à solidão.

Trazes contigo os dotes da brandura:
Ante os golpes do ódio explosivo e violento,
Guardas a faculdade de extinguir
O fogo da revolta e o fel do sofrimento

Observa o tesouro da palavra:
Se envolvida de paz a tua frase alcança
Todo aquele que cai na sombra da tristeza
Para erguer-se de novo ao toque da esperança.

Não te digas inútil, nem te omitas...
A trabalhar, servir, amparar, recompor
Serás, alma querida, em qualquer parte,
A presença de Cristo em teu gesto de amor.

Autora: Maria Dolores

 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Todos Ricos

Não digas, alma irmã, que nada tens
Ante a dificuldade em que te recriminas,
Na grandeza do mundo em que Deus nos resguarda,
Olha o valor das coisas pequeninas.

Reflete na semente diminuta
Na terra áspera e seca que se enfresta,
Apesar do deserto que a rodeia
Pode ser o princípio da floresta.

Pensa na gota medicamentosa
Na convulsiva dor de impacto violento,
Simples gota, lembrando pétala de orvalho,
Suprimindo o poder do sofrimento.

Fita a mansão moderna alçada ao brilho
Da Terra enobrecida e renovada,
Quanto é pobre de força e segurança
Sem a presença humilde da tomada.

Se, um dia, atravessaste a noite espessa,
Tateando sem rumo dentro dela,
Conheces quanto aflige a escuridão
E quanto vale a chama de uma vela.

Não digas, alma irmã, que te sentes inútil,
Não existem no amor donativos plebeus,
Tens contigo a riqueza da esperança,
O sorriso da paz e a proteção de Deus.

Autora: Maria Dolores
 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Presença de Jesus

Afirmas, muita vez, alma querida,
Em fervorosa prece:
- “Quero, Jesus, servir e cooperar contigo!...
Ah! Senhor, se eu pudesse!...”

Depois, declaras-te sem forças.
Pensa, entretanto, nisto:
Podes ser hoje mesmo, onde estiveres,
A sublime extensão da bondade do Cristo!...

Fita a sobra da mesa que te ampara:
Utilizando um pão, simples embora,
Consegues replantar as flores da alegria
Na penúria que chora.

Considero o montão de bens que atiras longe
Sem sentir, sem pensar, inconsequentemente:
Descobrirás nas mãos o privilégio
De estender reconforto a muita gente.

Lembra a moeda, tida por singela:
Escorada na fé que te bendiz,
Transforma-se na xícara de leite
Que socorre e refaz a criança infeliz.

Detém-te nos minutos disponíveis:
Ao teu devotamento se farão
A visita, a bondade, o carinho e o consolo
Para o enfermo largado à solidão.

Trazes contigo os dotes da brandura:
Ante os golpes do ódio explosivo e violento,
Guardas a faculdade de extinguir
O fogo da revolta e o fel do sofrimento.

Observa o tesouro da palavra:
Se envolvida de paz, a tua frase alcança
Todo aquele que cai na sombra da tristeza
Para erguer-se de novo ao toque da esperança.

Não te digas inútil, nem te omitas...
A trabalhar, servir, amparar, recompor,
Serás, alma querida, em qualquer parte,
A presença do Cristo em teu gesto de amor.

Autora: Maria Dolores
 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Minha Mãe

Lembro-te mãe, revendo a nossa casa... 
O pequeno jardim, o poço a horta... 
O vento brando que transpunha a porta, 
Afagando o fogão de lenha em brasa... 

Esfregavas a roupa na bacia... 
Eu ficava na rede, aos teus desvelos... 
Depois, vinhas beijando-me os cabelos, 
A embalar-me, cantando de alegria. 

Dorme, dorme, prenda minha, 
Dorme agora, meu amor, 
És a joia que eu não tinha, 
Prenda minha, minha flor!... 

Lá no céu tem três estrelas, prenda minha, 
Todas são de prata e luz, 
Lá do céu você me veio, prenda minha, 
Por presente de Jesus!... 

E lá se foi o tempo ante as mudanças... 
Cresci, fiquei rebelde... estradas novas... 
Entrei no mundo grande, em grandes provas, 
Carregando saudades e esperanças... 

Hoje, volto a rever-te, mãe querida!... 
Quero dizer-te, em minha gratidão, 
Que és o amor sempre amor, em minha vida, 
É a própria vida de meu coração.

Autora: Maria Dolores
 

sábado, 15 de maio de 2021

Tempo e Vida

Depois da morte é que vemos,
Quando a luz se nos revela,
Quanta sombra e bagatela
Guardamos no coração.
Quantos lamentos inúteis
Complicavam-nos a vida,
Quanta palavra perdida,
Quanto tempo gasto em vão!...

Quantas horas desprezadas,
De espírito desatento
Nos enganos de um momento
Que o próprio tempo desfaz!
Quanta contenda improfícua,
Quanto disfarce no rosto
Que se transforma em desgosto
Furtando a esperança e a paz.

Alma querida, não creias
Seja a morte o fim de tudo,
O tempo – esse sábio mudo,
Concede-nos voz e vez,
Acompanha-nos o passo,
Age, segundo a segundo,
E nos conhece o mundo
Tudo aquilo que se fez.

Ama, esclarece, abençoa,
Sofre e luta, mas não temas,
Ninguém vive sem problemas,
Onde estiver e onde for;
Vida é lavoura perfeita,
Morte é o braço que a preserva,
Que só replanta ou conserva
O que se faz por amor.

Autora: Maria Dolores
 

sábado, 1 de maio de 2021

Sonho e Trabalho

Alcei ao Alto o olhar, um dia,
Como quem desejasse adivinhar
Que prodígio de sóis encontraria
No celeste esplendor do Eterno Lar...

Vendo constelações e nebulosas
Lançando irradiações maravilhosas,
Indaguei do mentor que seguia a meu lado:
- "Na faixa de trabalho a que me abrigo,
Quereria saber, prezado amigo,
Se todo este Universo que entrevemos,
Astros e luzes pelos Céus supremos,
Vem a ser limitado ou iluminado...

Onde se ocultaria a rútila nascente,
A luz primeira da primeira fonte
Do Universo esplendente,
A vibrar e a fulgir, acima do horizonte?"

Na bondade que marca os grandes instrutores,
Ele apenas me disse: "Irmã Dolores,
Conhecimento exige gradação,
Não faças do porvir um ponto de aflição...

Sigamos, passo a passo,
Sem antecipações do Tempo, ante as forças do Espaço.
Aprimora-te, estuda, informa e ensina,
Mas fitando as Alturas,
Não tentes alcançar em visões prematuras,
Todo o excelso fulgor da Grandeza Divina..."

Interrompeu-se um tanto, ao pisarmos na Terra,
E prosseguiu depois, em tom profundo:
- "Nota, irmã, este nosso antigo mundo...
Quantas lições encerra!
Quem nos explicará, conscientemente,
O segredo interior de uma simples semente?

Que força existirá na flor que desabrocha,
Como entender a formação do mar
E a gênese da rocha?
É preciso, porém, caminhar, caminhar,
E servir por dever...

Outros pesquisarão na luz da inteligência
Os princípios celestes da existência...
Quanto a nós, entretanto,
Vendo tantos irmãos em dura prova,
Sem mágoa e sem espanto,
Cabe-se acender a luz da vida nova
E construir o bem ao suprimir a dor.

Busquemos o trabalho que nos chama,
Não há tempo a perder...
Vemos, por toda parte, o mundo que reclama:
- Quanta coisa a fazer! ...

Por agora, é impossível
Definimos, por nós, os mundos de alto nível;
Mas podemos ouvir, do palácio à choupana,
Toda a tribulação que atinge a vida humana...
Quantas mães, temos hoje a confortar,
Marcadas pela dor que lhes aflige o lar?

Quantos homens leais aguardam fortaleza,
A fim de prosseguir na luta que os retém
Sustentando no mundo a batalha do bem?
Quantos irmãos doentes sem defesa?
Quantos pedintes amargando crises?
Quantas crianças tristes e infelizes?
Quantos amigos jazem mutilados,
Quantos deles se arrastam desprezados?
Quantos barracos tombam sob o vento?
Quantas mansões guardando o sofrimento?
Quantos homens, tentando a deserção da vida?
Como paralisar tanto impulso suicida?

Na pausa do instrutor que silencia, atento,
Fitei de novo, a luz do firmamento
E de olhar retornando à vastidão do mundo,
Eis que em meditação e em prece me aprofundo...
E concluí, de mim para comigo:
- Deus de Infinito Amor, por tudo te agradeço,
Não me deixes, porém, pensar em céus que ainda não mereço! ...
Dá-me forças na estrada em que prossigo,
A Terra que nos deste é o nosso imenso lar...
Faze-me trabalhar! ...

Ajuda-me, Senhor,
A espalhar a esperança, a cultivar amor
E deixa-me aceitar e compreender
Tanta gente a lutar, tanta coisa a fazer!...

Autora: Maria Dolores
 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Retrato da Amizade

Agradeço, alma fraterna e boa,
O amor que no teu gesto se condensa,
Deixando ao longe a festa, o ruído e o repouso
Para dar-me a presença...

Sofres sem reclamar enquanto exponho
Minhas ideias diminutas
E anoto quanto é grande o teu carinho
No sereno sorriso em que me escutas.

Não sei dizer-te a gratidão que guardo
Pelas doces palavras que me dizes,
Amenizando as lutas que carrego
Em meus impulsos infelizes.

Auxilia-me a ver sem barulho ou reproche,
Dos trilhos para o bem o mais certo e o mais curto,
Sem cobrar pagamentos ou louvores
Pelo valor do tempo que te furto.

Aceitas-me como um todo como sou,
Nunca me perguntaste de onde vim
Nem me solicitaste qualquer conta
Da enorme imperfeição que trago em mim!...

Agradeço-te ainda o socorro espontâneo
Que me estendes à vida estrada afora,
Para que as minhas mãos se façam mensageiras
De consolo a quem chora!...

Louvado seja Deus, alma querida e bela
Pelo conforto de teu braço irmão
Por tudo que tem sido em meu caminho,
Por tudo me dás ao coração!...

Autora: Maria Dolores
 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Razões da Vida

Indagas, muita vez, alma querida e boa:
– “Meu Deus, por que essa dor que me atormentar o ser?”
E segues, trilha afora, em pranto oculto,
De sonho encarcerado, a lutar e a sofrer.

Anelas outro clima, outro lar e outros rumos,
Entretanto, o dever te algema o coração dorido
Ao campo de trabalho que abraçaste,
Atendendo, na Terra, a divino sentido.

Antes de renascer, os seres responsáveis
Notam as próprias dívidas quais são
E suplicam a Deus lhes conceda no mundo
O caminho que os leve à redenção.

Não recalcitres, pois, contra os próprios encargos
Que te pareceu fardos de problemas,
Encontras-te no encalço da conquista
De bênçãos imortais e alegrias supremas.

A lágrima que vertes padecendo
Longas tribulações, entre lutas e crises,
É um remédio da vida, em nossos olhos,
Que nos faculte ver os irmãos infelizes.

O abandono dos seres que mais amas,
Criando-te a aflição em que choras e anseias,
É um curso de lições em que aprendemos
Quanto custam na estrada as angústias alheias.

Familiares que te contrariam
Trazem-nos à lembrança os gestos rudes
Com que outrora ferimos entes caros
No fel de nossas próprias atitudes.

Afeição de outras eras que descubras,
Querendo-lhe debalde a presença e a união,
É instrumento de amor que te inspira a renúncia
Para o trabalho da sublimação.

A experiência humana é breve aprendizado
E essa tribulação que te fere e domina
É recurso dos Céus, em nosso amparo,
Zelo, defesa e luz da Bondade Divina.

Sofre sem reclamar a prova que te coube,
Mesmo que a dor te espanque, atingindo apogeus...
E, um dia, exclamarás, ante os sóis de outra vida:
– “Bendita seja a Terra!... Obrigado, meu Deus!"

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 15 de março de 2021

Trabalha Espera e Confia

Ah! coração fatigado,
Na aflição que te vigia,
Nunca te percas da fé;
Trabalha, espera, confia.

Por mais lutes, mais avanças
Em triste, espinhosa via...
Não esmoreças, contudo;
Trabalha, espera, confia.

Cada hora te parece
Nova dor que se anuncia...
Não te afundes em revolta;
Trabalha, espera, confia.

Já não sabes o tamanho
Da prova que te assedia;
Mesmo assim, prossegue à frente;
Trabalha, espera, confia.

Encontras, a cada passo,
Desprezo, descortesia...
Desculpa, servindo mais;
Trabalha, espera, confia.

Entre os seres mais amados,
Padeces desarmonia;
Não faltes à paciência;
Trabalha, espera, confia.

Sonhaste calma ventura
E sofres em demasia...
No entanto, aguarda o futuro;
Trabalha, espera, confia.

Não temas, nem desesperes,
Toda sombra é fugidia.
O sol brilha, a nuvem passa...
Trabalha, espera, confia.

Para a cura de ansiedade,
Angústia, melancolia,
Usa a receita de sempre:
Trabalha, espera, confia.

Cada manhã, Deus te fala,
Na bênção de novo dia:
- Se queres felicidade,
Trabalha, espera, confia.

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras da Vida

Levanta-te, cada dia,
Pensa em Deus, louva e agradece,
Mesmo num lance de prece
A benção de trabalhar
E cumpre as obrigações
Que a vida te deu às horas,
Doando a paz onde moras,
Partindo do próprio lar.

Se resguardas na lembrança
Alguma ofensa sofrida,
Deixa essa ofensa esquecida
Na luz eterna do bem;
Não busques descanso inútil,
Trabalho é apoio preciso,
Não afastes teu sorriso 
Do coração de ninguém.

Exerce a beneficência
Das palavras benfazejas,
Se não tens o que desejas,
Contenta-se no que tens;
Às vezes, para quem sofre,
Um momento de alegria
No abraço de simpatia
É sempre o melhor dos bens.

Nunca esmoreça. Trabalhe
Aprimora o mundo todo,
Muita flor nasce do lodo
Muito amparo vem da dor...
Serve, ensina e reconforta
Na fé viva que te alcança,
Entre as luzes da esperança
Começa o reino do amor.

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Recado da Vida

Se o presente é rude e amargo,
com nublados horizontes,
coração não se amedrontes
nas sombras de algum lugar...
sigamos buscando a frente,
na direção do porvir,
a paz reclama servir,
progresso pede marchar.

Olha o quadro que te cerca,
do átomo aos oceanos,
do verme aos seres humanos,
a confiança é valor;
o sol se apoia no espaço,
criando jardins fecundos
que o tempo transforma em mundos
de evolução e de amor.

A semente entregue ao solo
germina e cresce sem medo,
faz-se depois arvoredo,
depois, é verde mansão;
suporta vento e aguaceiro
cada flor que desabrocha,
confia-se o vale à rocha,
o rio tem fé no chão.

Assim também, os espinhos
da provação que te alcança,
são faixas de segurança
de invisíveis cireneus;
cumpre o dever que te cabe,
trabalha, serve e porfia,
tens a fé por luz e guia
da Terra aos braços de Deus.

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Perdoa e Serve

A mágoa não te aborreça
Nem te conturbe a alma aflita,
A frase que seja dita
Destacando a sombra e o mal.
A Terra é uma grande escola
De beleza indefinida,
Mas, por vezes, tem na vida
A importância do hospital.

Quantos amigos encontras
De cabeça erguida à frente,
Sem mostrar a alma doente
Sob a forma juvenil,
Esse transporta consigo
As trevas de ódio violento,
Outro guarda o sofrimento
Que vem de amarguras mil.

Aquela mulher vistosa
De porte belo e perfeito
Exibe uma cruz no peito
Por adorno de eleição;
Mas, embora vive em festa,
Carrega junto a quem ama
Uma cruz de pedra e lama
Por dentro do coração.

Alma querida, não deixes
Que a mágoa te busque ou vença,
Perdoa qualquer ofensa,
Seja essa ofensa qual for;
Na luta entre o bem e o mal
Na construção do porvir,
Triunfa quem sabe agir
Usando a bênção do amor.

Autora: Maria Dolores
 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Petições de Natal

Senhor!...
Quando criança, Só surgia o Natal,
Eu te enfeitava o nome em flores de papel,
E te rogava em oração, Tomada de esperança,
Que me mandasses por Papai Noel,
Uma boneca diferente, Que caminhasse à minha frente,
Ou falasse em minha mão...

Noutro tempo, Senhor,
Jovem pisando alfombras cor-de-rosa,
De cada vez que ouvia, Anúncios de Natal,
Deslumbrada de sonho, eu te pedia,
Um castelo de amor e fantasia,
Para o meu ideal.

Depois... Mulher cansada, Quando via o Natal,
brilhando à porta, Minha pobre ansiedade quase morta,
Multiplicava preces, E suplicava que me desses,
Na velha angústia minha, A ilusão de ser amada,
Embora, ao fim da estrada, Fosse triste e sozinha.

Hoje, Senhor, Alma livre, no Além, onde o consolo me refaz,
Ante a luz do Natal, novamente acendida,
Agradeço-te, em paz, Contente e enternecida,
As surpresas da morte e as lágrimas da vida!...

E, se posso implorar-te algo à bondade,
Nunca me dês aquilo que eu mais queira,
Dá-me a tua vontade, E o dom da compreensão,
Entre a humildade verdadeira, E a serena alegria,
A fim de que eu te busque, dia-a-dia,
Mestre do coração!...

Autora: Maria Dolores
 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Sempre o Bem

Bendito sejas, coração amigo,
Buscando construir e elevar para o bem
Sem destacar a treva
Nem ferir a ninguém.

Deus te guarde na lei do auxílio que nos rege
Sempre que te dediques a expressar-te,
À Excelsa Providência determina
Que a bênção do socorro esteja em toda parte.

Quem de nós, aprendizes do progresso,
Estará esquecendo orgulho, possessão, vaidade, força bruta?
Sem o amparo de alguém que nos tolere
E nos minore a luta?

Não vale maldizer a sombra em torno,
Basta a fim de arredá-la humilde vela acesa,
Unir e melhorar, ajudar e servir
São determinações da natureza.

Um pântano qualquer pode fazer-se, um dia,
Campina surpreendente, em fruto e flor,
Mas não prescindirá de mãos amigas
Que lhe estendam recurso, auxílio e amor...

Fita a cachoeira em ápices de força...
Sem alguém que lhe oferte o controle da usina,
É grandeza de ação deficitária,
Alto poder entregue à indisciplina.

Certo bloco de mármore do monte
Rolou a flagelar canteiros de verdura,
Mas um artista a educá-lo, dia-a-dia,
Dele fez obra-prima de escultura.

Pensemos quanto a isso, alma querida,
Estendendo a esperança, ante a força do bem;
Quem procura no amor a elevação da vida,
Não se detém no mal, nem censura a ninguém.

Autora: Maria Dolores
 

domingo, 15 de novembro de 2020

Reencontro no Além

Vagueava no Espaço a pobre mãe suicida,
Apagara, a veneno, a luz da própria vida
Tentando reencontrar o filho que perdera
Em tóxicos letais,
Saudade, ânsia, aflição...
Não suportara mais.
E espírito da sombra, em lágrimas vagueia,
Entre a cegueira e a dor na angústia que a estonteia.

Dias, semanas, meses na loucura
Atravessara, atribulada e errante,
O império do remorso, ante a sombra gigante,
Sem confiança em Deus, infeliz e insegura,
A bradar o estribilho:
- Ah! meu filho, meu filho!...
Até que atormentada, louca e cega
Tateando no Além, eis que se apega
A desditoso irmão, também desorientado,
Que lastimava, em choro, os erros do passado...
Depois de ouvir-lhe os gritos,
O pobre respondeu:

- A senhora clamando é mais feliz do que eu,
Seu coração procura um filho muito amado,
Quanto a mim... quanto a mim,
Quero esquecer a mãe que tive no passado,
Que me repôs aqui, neste inferno sem fim...
E o pobre continuou, desalentado:
Saí daqui, um dia, a fim de melhorar-me,
Ela me recolheu nos braços com carinho...
Vestiu-me e festejou a júbilos e alarme,
O berço em que eu nascia...
A princípio, embalou-me em canções de alegria,
Entretanto, depois,
Na vida mais profunda entre nós dois,
Segregou-me no mundo, em egoísmo atroz,
Para ela, por fim, na ilusão que levava,
A terra éramos nós, o amor somente nós...

Criou-me escravo dela e fez-me minha escrava,
Afastou-me de tudo quanto fosse inquietação ou prova,
Em que me caberia
Acender, dentro em mim, a luz de vida nova.
Transformou-me a existência em longa fantasia
Para que eu fosse,
Desde o a b c da escola,
Um gênio de artimanhas,
Um moço de aventuras e façanhas,
Mas nunca um aprendiz
Que fosse no futuro um homem reto e feliz.

Quando atingi a plena juventude,
Contratou-me instrutores,
Que me ensinassem força, ação, elegância e beleza,
A fim de que, na forma, eu dominasse
Todos os contendores,
Fortes também por leis da natureza...
Deveria, por fim, ver todos muito abaixo,
A minha pobre mãe exigia e exigia
Que eu demonstrasse, em tudo, a excelência de um macho...
Depois, no entanto, veio a derrocada,
O tóxico apanhou-me a preguiça dourada...

Minha mãe jamais quis ensinar-me a sofrer,
Não quis que eu trabalhasse ou prezasse um dever...
Conheci a maldade e os impulsos medonhos
E a morte prematura, arrasando-me os sonhos...
De útil ou de bom nada tenho e nem fiz,
Sou agora, onde estou, um espírito infeliz!...

Ao escutar-lhe a voz e ao conhecer-lhe o nome,
Cai a pobre mulher na angústia que a consome;
Chama o desventurado e arrasta-se-lhe aos pés,
Avançando de bruços,
Ei-la a falar, desfeita em terríveis soluços:
- Agora compreendo...agora sei quem és...
E, em desespero, a voz grita, ante o céu sem brilho:
- Perdoa-me, meu Deus! ... Ah! meu filho, meu filho! ...

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Pai Sempre

Alguém te disse, alma querida e boa,
Que os Espíritos Nobres
Nunca se valem de pessoa
Claramente imperfeita
Em tarefas de amor à Humanidade...

Por isso mesmo o escrúpulo te invade
E, receando a própria imperfeição,
Foges do privilégio de servir
Em que o Senhor te pede trabalhar
A fim de conquistar
O Celeste Porvir...

Reflitamos, no entanto,
Entre simples lições da Natureza:
A semente germina em lauréis de esperança,
Muita vez sob a lama asco rosa e indefesa;
A fonte não seria exemplo de bondade
Em que a vida enxameia,
Se recusasse deslizar
Sobre tratos de terra e lâminas de areia...

Olha as flores do charco
Embalsamando campos e caminhos,
A rosa não desdenha florescer
Entre punhais de espinhos...

Pensa ainda conosco
Nas fraquezas e lágrimas que levas.
O Sol seria o Sol
Se fugisse das trevas?
Esquece pessimismo, acusação, censura,
Nada te desanime, ergue-te e vem...

Conquanto enferma e rude, mesmo assim,
Se te encontras na sombra, avança para a luz,
Sem desertar, porém, de servir com Jesus!
Vem cooperar no amor que devemos ao mundo
E entenderás, por fim,
Que só se vence o mal pelo serviço ao Bem
E que a bênção de Deus jamais nos desampara
Nem despreza a ninguém.

Autora: Maria Dolores