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segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras da Vida

Levanta-te, cada dia,
Pensa em Deus, louva e agradece,
Mesmo num lance de prece
A benção de trabalhar
E cumpre as obrigações
Que a vida te deu às horas,
Doando a paz onde moras,
Partindo do próprio lar.

Se resguardas na lembrança
Alguma ofensa sofrida,
Deixa essa ofensa esquecida
Na luz eterna do bem;
Não busques descanso inútil,
Trabalho é apoio preciso,
Não afastes teu sorriso 
Do coração de ninguém.

Exerce a beneficência
Das palavras benfazejas,
Se não tens o que desejas,
Contenta-se no que tens;
Às vezes, para quem sofre,
Um momento de alegria
No abraço de simpatia
É sempre o melhor dos bens.

Nunca esmoreça. Trabalhe
Aprimora o mundo todo,
Muita flor nasce do lodo
Muito amparo vem da dor...
Serve, ensina e reconforta
Na fé viva que te alcança,
Entre as luzes da esperança
Começa o reino do amor.

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Recado da Vida

Se o presente é rude e amargo,
com nublados horizontes,
coração não se amedrontes
nas sombras de algum lugar...
sigamos buscando a frente,
na direção do porvir,
a paz reclama servir,
progresso pede marchar.

Olha o quadro que te cerca,
do átomo aos oceanos,
do verme aos seres humanos,
a confiança é valor;
o sol se apoia no espaço,
criando jardins fecundos
que o tempo transforma em mundos
de evolução e de amor.

A semente entregue ao solo
germina e cresce sem medo,
faz-se depois arvoredo,
depois, é verde mansão;
suporta vento e aguaceiro
cada flor que desabrocha,
confia-se o vale à rocha,
o rio tem fé no chão.

Assim também, os espinhos
da provação que te alcança,
são faixas de segurança
de invisíveis cireneus;
cumpre o dever que te cabe,
trabalha, serve e porfia,
tens a fé por luz e guia
da Terra aos braços de Deus.

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Perdoa e Serve

A mágoa não te aborreça
Nem te conturbe a alma aflita,
A frase que seja dita
Destacando a sombra e o mal.
A Terra é uma grande escola
De beleza indefinida,
Mas, por vezes, tem na vida
A importância do hospital.

Quantos amigos encontras
De cabeça erguida à frente,
Sem mostrar a alma doente
Sob a forma juvenil,
Esse transporta consigo
As trevas de ódio violento,
Outro guarda o sofrimento
Que vem de amarguras mil.

Aquela mulher vistosa
De porte belo e perfeito
Exibe uma cruz no peito
Por adorno de eleição;
Mas, embora vive em festa,
Carrega junto a quem ama
Uma cruz de pedra e lama
Por dentro do coração.

Alma querida, não deixes
Que a mágoa te busque ou vença,
Perdoa qualquer ofensa,
Seja essa ofensa qual for;
Na luta entre o bem e o mal
Na construção do porvir,
Triunfa quem sabe agir
Usando a bênção do amor.

Autora: Maria Dolores
 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Petições de Natal

Senhor!...
Quando criança, Só surgia o Natal,
Eu te enfeitava o nome em flores de papel,
E te rogava em oração, Tomada de esperança,
Que me mandasses por Papai Noel,
Uma boneca diferente, Que caminhasse à minha frente,
Ou falasse em minha mão...

Noutro tempo, Senhor,
Jovem pisando alfombras cor-de-rosa,
De cada vez que ouvia, Anúncios de Natal,
Deslumbrada de sonho, eu te pedia,
Um castelo de amor e fantasia,
Para o meu ideal.

Depois... Mulher cansada, Quando via o Natal,
brilhando à porta, Minha pobre ansiedade quase morta,
Multiplicava preces, E suplicava que me desses,
Na velha angústia minha, A ilusão de ser amada,
Embora, ao fim da estrada, Fosse triste e sozinha.

Hoje, Senhor, Alma livre, no Além, onde o consolo me refaz,
Ante a luz do Natal, novamente acendida,
Agradeço-te, em paz, Contente e enternecida,
As surpresas da morte e as lágrimas da vida!...

E, se posso implorar-te algo à bondade,
Nunca me dês aquilo que eu mais queira,
Dá-me a tua vontade, E o dom da compreensão,
Entre a humildade verdadeira, E a serena alegria,
A fim de que eu te busque, dia-a-dia,
Mestre do coração!...

Autora: Maria Dolores
 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Sempre o Bem

Bendito sejas, coração amigo,
Buscando construir e elevar para o bem
Sem destacar a treva
Nem ferir a ninguém.

Deus te guarde na lei do auxílio que nos rege
Sempre que te dediques a expressar-te,
À Excelsa Providência determina
Que a bênção do socorro esteja em toda parte.

Quem de nós, aprendizes do progresso,
Estará esquecendo orgulho, possessão, vaidade, força bruta?
Sem o amparo de alguém que nos tolere
E nos minore a luta?

Não vale maldizer a sombra em torno,
Basta a fim de arredá-la humilde vela acesa,
Unir e melhorar, ajudar e servir
São determinações da natureza.

Um pântano qualquer pode fazer-se, um dia,
Campina surpreendente, em fruto e flor,
Mas não prescindirá de mãos amigas
Que lhe estendam recurso, auxílio e amor...

Fita a cachoeira em ápices de força...
Sem alguém que lhe oferte o controle da usina,
É grandeza de ação deficitária,
Alto poder entregue à indisciplina.

Certo bloco de mármore do monte
Rolou a flagelar canteiros de verdura,
Mas um artista a educá-lo, dia-a-dia,
Dele fez obra-prima de escultura.

Pensemos quanto a isso, alma querida,
Estendendo a esperança, ante a força do bem;
Quem procura no amor a elevação da vida,
Não se detém no mal, nem censura a ninguém.

Autora: Maria Dolores
 

domingo, 15 de novembro de 2020

Reencontro no Além

Vagueava no Espaço a pobre mãe suicida,
Apagara, a veneno, a luz da própria vida
Tentando reencontrar o filho que perdera
Em tóxicos letais,
Saudade, ânsia, aflição...
Não suportara mais.
E espírito da sombra, em lágrimas vagueia,
Entre a cegueira e a dor na angústia que a estonteia.

Dias, semanas, meses na loucura
Atravessara, atribulada e errante,
O império do remorso, ante a sombra gigante,
Sem confiança em Deus, infeliz e insegura,
A bradar o estribilho:
- Ah! meu filho, meu filho!...
Até que atormentada, louca e cega
Tateando no Além, eis que se apega
A desditoso irmão, também desorientado,
Que lastimava, em choro, os erros do passado...
Depois de ouvir-lhe os gritos,
O pobre respondeu:

- A senhora clamando é mais feliz do que eu,
Seu coração procura um filho muito amado,
Quanto a mim... quanto a mim,
Quero esquecer a mãe que tive no passado,
Que me repôs aqui, neste inferno sem fim...
E o pobre continuou, desalentado:
Saí daqui, um dia, a fim de melhorar-me,
Ela me recolheu nos braços com carinho...
Vestiu-me e festejou a júbilos e alarme,
O berço em que eu nascia...
A princípio, embalou-me em canções de alegria,
Entretanto, depois,
Na vida mais profunda entre nós dois,
Segregou-me no mundo, em egoísmo atroz,
Para ela, por fim, na ilusão que levava,
A terra éramos nós, o amor somente nós...

Criou-me escravo dela e fez-me minha escrava,
Afastou-me de tudo quanto fosse inquietação ou prova,
Em que me caberia
Acender, dentro em mim, a luz de vida nova.
Transformou-me a existência em longa fantasia
Para que eu fosse,
Desde o a b c da escola,
Um gênio de artimanhas,
Um moço de aventuras e façanhas,
Mas nunca um aprendiz
Que fosse no futuro um homem reto e feliz.

Quando atingi a plena juventude,
Contratou-me instrutores,
Que me ensinassem força, ação, elegância e beleza,
A fim de que, na forma, eu dominasse
Todos os contendores,
Fortes também por leis da natureza...
Deveria, por fim, ver todos muito abaixo,
A minha pobre mãe exigia e exigia
Que eu demonstrasse, em tudo, a excelência de um macho...
Depois, no entanto, veio a derrocada,
O tóxico apanhou-me a preguiça dourada...

Minha mãe jamais quis ensinar-me a sofrer,
Não quis que eu trabalhasse ou prezasse um dever...
Conheci a maldade e os impulsos medonhos
E a morte prematura, arrasando-me os sonhos...
De útil ou de bom nada tenho e nem fiz,
Sou agora, onde estou, um espírito infeliz!...

Ao escutar-lhe a voz e ao conhecer-lhe o nome,
Cai a pobre mulher na angústia que a consome;
Chama o desventurado e arrasta-se-lhe aos pés,
Avançando de bruços,
Ei-la a falar, desfeita em terríveis soluços:
- Agora compreendo...agora sei quem és...
E, em desespero, a voz grita, ante o céu sem brilho:
- Perdoa-me, meu Deus! ... Ah! meu filho, meu filho! ...

Autora: Maria Dolores
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Pai Sempre

Alguém te disse, alma querida e boa,
Que os Espíritos Nobres
Nunca se valem de pessoa
Claramente imperfeita
Em tarefas de amor à Humanidade...

Por isso mesmo o escrúpulo te invade
E, receando a própria imperfeição,
Foges do privilégio de servir
Em que o Senhor te pede trabalhar
A fim de conquistar
O Celeste Porvir...

Reflitamos, no entanto,
Entre simples lições da Natureza:
A semente germina em lauréis de esperança,
Muita vez sob a lama asco rosa e indefesa;
A fonte não seria exemplo de bondade
Em que a vida enxameia,
Se recusasse deslizar
Sobre tratos de terra e lâminas de areia...

Olha as flores do charco
Embalsamando campos e caminhos,
A rosa não desdenha florescer
Entre punhais de espinhos...

Pensa ainda conosco
Nas fraquezas e lágrimas que levas.
O Sol seria o Sol
Se fugisse das trevas?
Esquece pessimismo, acusação, censura,
Nada te desanime, ergue-te e vem...

Conquanto enferma e rude, mesmo assim,
Se te encontras na sombra, avança para a luz,
Sem desertar, porém, de servir com Jesus!
Vem cooperar no amor que devemos ao mundo
E entenderás, por fim,
Que só se vence o mal pelo serviço ao Bem
E que a bênção de Deus jamais nos desampara
Nem despreza a ninguém.

Autora: Maria Dolores

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Ouve Coração

Perguntas, coração,

Como sanar as dores sem medida,

De que modo enxugar a lágrima incontida

Sob nuvens de fel e de pesar!...

Recordemos o chão...

Quando o lodo ameaça uma estrada indefesa,

Em cada canto roga a Natureza:

Trabalhar, trabalhar.

 

Fita o aguaceiro que se fez tormenta.

Ao granizo que estala, o vento insulta;

Seio de mágoas que se desoculta,

A terra, em torno, geme a desvairar...

Mas, finda a longa crise turbulenta,

Sobre teto quebrado, pedra e lama,

Renasce a paz do céu que vibra e chama:

Trabalhar, trabalhar.

 

Ressurge, inalterado, o sol risonho,

Não pergunta se o mal ganhou no mundo

A tudo abraça em seu amor profundo,

A criar e a brilhar!

Recebe cada flor um novo sonho,

Cada tronco uma bênção, cada ninho

Canta para quem passa no caminho:

Trabalhar, trabalhar.

 

Assim também, nas horas de amargura,

Enquanto a sombra ruge ou desgoverna,

Pensa na glória da Bondade Eterna,

Acende a luz da prece tutelar!

E vencerás tristeza e desventura,

Obedecendo à voz de Deus na vida

Que te pede em silêncio, à alma ferida:

Trabalhar, trabalhar.

 

Autora: Maria Dolores

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Rendição

Perdoa-me, Senhor, se estou cansada

De meus sonhos falidos,

Longe de ti, vagando, estrada a estrada,

Nas muitas quedas de meus tempos idos.

 

Jesus, se posso ainda despenhar-me

Na treva em que o passado me envolvia,

Que a tua previdência me desarme

Qualquer inclinação à rebeldia.

 

Se ainda posso afundar-me em desalinho,

Replantando ilusões pra frutos amargos,

Não me deixes a sós, nos passos do caminho,

Conserva-me no chão de meus próprios encargos.

 

Se agindo ou imaginando, estiver a ferir

Nos gestos sem razão de que ainda me valho,

Guarda-me no dever sem meios de fugir

À escravidão bendita do trabalho

 

Nas construções verbais a que me entrego

No anseio de encontrar tarefas benfazejas,

Não consintas que eu diga as sombras que carrego,

Induze-me a falar, conforme o que desejas.

 

Quando vacile ou tente desertar

Da luz bendita com que me renovas

Não me deixes sair de meu justo lugar,

Mesmo à custa de crises e de provas.

 

Despoja-me, Senhor, da sombra que me enlaça,

A minha teimosia chega ao fim,

Consente-me entender o que queres que eu faça,

Ajuda-me, Senhor, a esquecer-me de mim!...

 

Autora: Maria Dolores

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Paz em Caminho


“Tempos difíceis!... Época de lutas!...”
Dizes guardando na alma a luz acesa
Da análise que vem da madureza
Que o tempo te ensinou a registrar!...
Nesses amplos conflitos da existência,
Embora os desencantos do caminho,
Eis que o Céu te aconselha ao peito em desalinho:
- Perdoar, perdoar...

Companheiros terão mudado a senda,
Olvidando-te a fome de ternura,
Sem notar a dor que te tortura,
Ao senti-los descendo de lugar;
Choras almas queridas que te esquecem,
Perseguindo o prazer ruidoso e vão,
Mas a vida te pede ao coração:
-Perdoar, perdoar...

Quantos amigos vês, trocando de fé,
Por negação que as faltas lhes encobre,
Quantas almas geniais de sentimento pobre
Que te procuram desencorajar!...
As horas, entretanto, vão passando
E o tempo resguardando a antevisão de tudo,
Roga-te na função de mestre mudo:
- Perdoar! Perdoar!...

Não te isoles. Prossegue trabalhando
Na tarefa de amor que te eleva e te apura,
Quantos se dão à sombra da ventura,
Não encontram senão ânsia e pesar!...
Age, fazendo o bem... Caminha e continua...
Para seguir Jesus, estrada adiante,
A própria Lei de Deus nos lembra a cada instante:
- Perdoar! perdoar.

Autora: Maria Dolores

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Peregrinação


Sofres, alma querida, os contratempos
Do dever a cumprir... O anseio, a prova,
O medo, a incompreensão, a insegurança...
E solas-te no lar, cuja paz te renova.

Quando a tristeza te procure a vida,
Não te acomodes sob o desalento...
Ouve os irmãos do mundo que te buscam,
Marcados de fadiga e sofrimento.

Venho de minha ronda costumeira...
Numa choça de latas e bagaços,
Vi pobre mãe, a sós, ninando em pranto
Um filho morto nos seus próprios braços.

Num telheiro a cair, encontrei um velhinho...
Ele viu-me e falou em voz sumida e mansa:
- “Moça, eu estou morrendo a pedir quem me faça
Uma prece de paz e de esperança...”.

Mais adiante, achei um hanseniano amigo
Que, em me vendo, clamou: “Minha irmã, por quem és,
Dá-me água, por Deus! Já não mais me equilibro!...
Quero buscar o poço e caíram-me os pés...”“.

Logo após, descobri triste mulher enferma,
Erguendo, quase morta, a seguinte oração:
- “Meu Deus, além do amparo que me enviar,
se possível, Senhor, dá-me a bênção de um pão...”“.

Por isso, coração, não te dês à amargura,
Esquece-te a servir, sem perguntar a quem...
O Cristo que buscamos nos espera,
Entre leiras de amor, na plantação do bem.

Autora: Maria Dolores

sábado, 15 de agosto de 2020

Paterno Amor


Na entrada do asilo,
Um homem robusto, jovem e tranquilo,
Apresentava o pai, um velho que contava
Oitenta e dois janeiros de existência,
À funcionária atenta que o ouvia...

Após sentá-lo num pequeno banco,
Falou à moça em tom seguro e franco:
- “O velho já não sabe o que pensa ou o que diz,
A gritar e a gemer de exigência à exigência,
Formou de minha casa
Um recanto infeliz,
Cujo clima de luta é fogo que me arrasa.

Não quero ver meu filho
Crescendo com o avô inconveniente,
Quero-lhe a internação
De modo permanente.

Quanto custa a pensão?”
A moça respondeu indiferente:
- “A pensão é de quatro mil cruzeiros
A serem pagos mensalmente”.

O senhor fez o cheque
Fazendo o pagamento da quantia
E depois de informar que voltaria,
Foi-se ao pai fatigado, explicando ao velhinho:
- “Meu pai, aqui é a nossa casa de descanso
Terás aqui mais sossego e carinho,
Ao voltarmos da Europa
Virei buscar-te, imediatamente.”

O pranto deslizou sobre a face enrugada
E o velho respondeu em voz tremente:
- “O que será, meu Deus? Que medonho empecilho!...
Estar aqui a sós, sem te encontrar, meu filho!...
E como aguentarei a falta de meu neto?
Não queria afastar-me de meu teto!...
Peço por Deus!... Não te demores
E vem logo buscar-me...”

O filho replicou, quase asperamente:
- “Sem dúvida, meu pai, que podes esperar-me,
Mas não faças alarme...
Nada fará de mim um filho diferente;
Creio que ao fim do mês que vem,
Regressarei como convêm...”

Mas o moço partiu e nunca mais voltou,
E ante a expressão do velho, triste e amarga,
Notava-se que o filho ali se despedira
Como quem se desliga de uma carga,
Agindo alegremente.

O velhinho viveu por lá, três anos,
De saudade, de dor e desenganos
A esperar pelo filho desertor;
A fadiga alterara-lhe a memória,
Não sabia contar a própria história,
Declarava-se um rico possuidor
De terras e fazendas produtivas,
Mas entregara tudo ao filho sem amor.

Numa procuração,
Sem julga-lo capaz de alguma ingratidão,
E embora o filho lhe pagasse o asilo,
Sem questionar o preço,
Não lhe enviava notas de endereço...

Após trinta e seis meses de clausura,
O velhinho ralado de amargura,
Morreu clamando a falta da família...
O cadáver desceu à vala da indigência,
Por fim se lhe acabara a penosa existência.
Mas o tempo não para em parte alguma...

Quarenta anos passados,
De coração batido e passos retardados,
O homem que internara o esquecido velhinho,
Nota que a morte chega a cercar-lhe o caminho,
Poderoso senhor, não consegue expressar-se.

Sob qualquer disfarce,
Tomba, inerte, no leito,
E ante o infortúnio da separação,
Grita por Deus, quer vida e proteção,
Mas a morte o reclama... o corpo se lhe esfria...

Vê-se desencarnado, em noite atroz,
Terrível e sombria...
Chora quase sem voz,
Quando sente que alguém lhe toma o cérebro cansado,
E lhe diz brandamente:
- “Filho do coração, não te aflijas, nem temas,
Acabaram-se agora os teus problemas;
Confia em Deus, não percas a esperança,
Acalma-te e descansa...”

E beijando-lhe os cabelos,
Dedos mostrando carinhosos zelos,
Exclamou com ternura:
- “Agora, sim, achei minha ventura,
Eu sou teu pai!... Meu filho, estou aqui...
Amo-te agora, mais do que te amava,
E só Deus sabe a dor com que eu chorava
Com saudades de ti!”

Autora: Maria Dolores

sábado, 1 de agosto de 2020

Súplica


Senhor! Enquanto a Terra se transforma,
Lembrando mar revolto ante bênção celeste,
Dá-nos a força de seguir na vida
A luz que nos legaste, o exemplo que nos deste!...

Auxilia-nos, Mestre, a suportar, sem queixa,
Luta, dificuldade, crise, prova...
Que aceitemos contigo a dor por instrumento
Que burila e renova.

Quando a perturbação nos assalte o roteiro,
Não nos deixe ferir ou desprezar alguém
E mostra-nos no mal que nos espanque e humilhe
A visita do bem.

Leva-nos a saber que o mal também trabalha e espera
E induze-nos a ver: em nossos vãos temores,
Que o diamante já foi carvão pobre e esquecido,
Que muito espinheiral é viveiro de flores.

Ante ofensas, pedradas e agressões,
Que, em teu nome, possamos acolhê-las,
Como quem agradece a escuridão da noite
Para guardar em prece a visão das estrelas!

Sobretudo, dirige-nos o passo,
Seja onde for e seja com quem for;
Ao clarão da bondade infatigável,
Para o culto do amor.

Que toda criatura do caminho
Encontre em nosso apoio um braço irmão,
Que vejamos, nos últimos da estrada,
Filhos do coração.

Concede-nos o dom de descobrir
Na imensa multidão atirada ao relento,
Nos irmãos em revolta, agarrados à sombra,
Nossa própria família em sofrimento.

Ensina-nos, Jesus, que os bens de que dispomos
São empréstimos teus
E faze-nos sentir que onde houver caridade,
Aí brilha mais alta a presença de Deus.

Autora: Maria Dolores

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Serve e Esquece


Coração, ouve!... Se queres

A bênção da paz constante,
Trabalha e segue adiante,
Cumprindo o próprio dever...
Para vencer no caminho
Tristeza, treva e pesar,
Muito mais do que lembrar
A vida roga esquecer.

Esquece as mágoas sofridas,
As horas de céu cinzento,
O azedume, o desalento
E os tempos de provação;
Renova-te, dia-a-dia,
Não pares, contando lutas,
Progresso é o lema que escutas
No mundo em transformação.

Tudo procura a vanguarda,
A flor converte-se em fruto
Do cascalho rijo e bruto,
Eis o diamante a surgir...
O fio forma o agasalho,
A própria noite se esquece
Na aurora que resplandece
Buscando a luz do porvir.

Da própria queda no erro,
Levanta-te e segue à frente,
Servindo incessantemente,
Tudo podes refazer;
Não te detenhas na angústia,
Ante o mal, prossegue e olvida,
As próprias nódoas da vida
A vida pede esquecer.

Autora: Maria Dolores